sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

CHÃO

Os meus dias são as folhas de todos os meses, que se lançaram ao vento, abraçaram-no e agora se deitam no chão. Pegaram essa cor de nódoa, essa cor de ontem e antes de ontem e antes, antes, depois apenas de algumas gotas de chuva... Bailaram com uma canção indecifrável, sabia-se apenas que emanava alguma melancolia, talvez solidão. Entendia-se apenas uma frase dita em língua lusitana “acorda o chão adormecido”.

As horas haviam se tornado graves, embora ainda fosse cedo, não sabia dizer se o telefone tinha tocado, uma ou duas vezes, enquanto resolvia algo importante que lhe retornava à mente. O frio passara junto com cada uma das histórias de seu passado, que agora, gota a gota de segundos, transformava-se em uma linha sinuosa de início impreciso, de término distante e que lhe instigava a curiosidade.

“Meu nome é Beatriz. Quando fecho os olhos, vejo as mãos do piano sobrepostas. Não sei ao certo se a mão que está por cima é a direita ou a esquerda, sei que há dedos brancos cobertos por dedos negros. A música que ouço é única...”

Só tinha parado de sorrir há poucas horas, observando uma estranha e bela nuvem, delineada por uma luz rósea salpicada por tons alaranjados, também com pancadas de lilás, de bordas amarelo-flamejante. Era fim de tarde, como sempre... Porém, anunciando a chuva que viria logo mais. Breve, mas suficiente para despertar os aromas da terra. Pingos escassos. Pingos escassos que só formavam palavras. Caíram e desenharam poemas cheios de amores e suspiros.

“Então, vinham delicadamente e me tocavam a face, descrevendo o percurso que só minhas emoções conhecem”.

Noite sem sonhos, noite de espaços desconhecidos.

“Quando fecho os olhos e os aperto com os dedos, vejo um céu absorvido pela escuridão e dela nascem cores e formas. Verde, azul, vermelho, amarelo em espirais, cordões e blocos. Agora branco, tantas fagulhas... E caindo, caindo, planando sem rumo, caindo... Rodopiando ao acaso como uma fuligem”.

As folhas já se partem, elas têm as vestes dos troncos das árvores e se esfacelam quando pisadas ou espremidas na palma das mãos. São partes do outono que chegou nesta manhã.

“Os meus dias se dividem quando penso neles ou quando lembro deles. Os meus dias se dividem em ontem e em talvez. Caminhando, vejo rostos sem foco, ruas disformes, paisagens que se assemelham a desenhos infantis tingidos com cores primárias. Eu penso que os meus dias têm os tons dos meus olhos fechados comprimidos por meus dedos...”

4 comentários:

kassianobre disse...

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

bju =)

Estêvão dos Anjos disse...

Muito bom msm

de uma tristeza e bela q chega a fazer bem :p

Anônimo disse...

O cotidiano corta...

e ae, tudo belezinha? sou amigo do born

entra lá no inul, www.inutilidadecultural.zip.net

molotov

Anônimo disse...

oxe, onde foi parar teu umbigo???

atualizei o inul denovo eaueuauheauh, se quiser, seus comentários são bem legais euauheauae

www.inutilidadecultural.zip.net