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Como faz tempo! Como faz... estrelas no céu! Quanto tempo faz que não olho para o céu e me ponho a ver estrelas? Faz tempo que não, hoje, não sei... Era domingo mais para noite do que para segunda de manhã e sol forte. "Olha! Olha aquela estrela ali. Como está brilhante!", disse-me, debruçada na janela.
Era diferente e novo, tive que me aproximar a curtos passos, tateando o espaço que já não era meu e continuava me pertencendo. Lembrei das vezes que ganhei gripes e estas viraram pneumonias, só porque eu ficava na varanda do velho apartamento, deitada no chão frio, olhando o dia ganhar tons cada vez mais escuros e pontinhos cada vez mais reluzentes.
A mesma mãe que tanto se desesperou com minhas febres me convidava para acordar e ver o tempo presente. "Olha aquela, filha! Agora a pouco, aquelas dali formavam um terço...". Vento da noite, cortando minha boca entreaberta, o pescoço nu em busca do ponto mais alto. Depois de meses anestesiada, olhei para o céu, pelo simples ato de me perder e acreditar que posso ver a forma arredondada do planeta.
Eu era a terra vivendo a descoberta (novamente). O ensinamento vinha do ventre que um dia arranhei com força para de lá não sair. Amava imensamente a mulher que eu não cansava de chamar de mãe, que não cansava de me abraçar e de me dizer palavras bonitas... Acho que recuperei meu pedaço de céu.
Não paro de pensar na força que empenho
Nada mais sedutor que
agora
Abandonar as vestes
de pobre condenado
Sair com as mesmas pernas
deste colar de corda e nó
Forca
Como é deliciosa a sensação de dominar os dias! Transformar agosto em janeiro enquanto escrevo algumas palavras, logo mais já é o ano seguinte e eu faço meu próprio tempo. Rasguei todos os calendários, principalmente aquele que ficava na cozinha. Cansei daquela paisagem desbotada e cheia de datas repetidas.
Agora é 31 de dezembro do ano que eu inventei, agora é o dia que eu quiser. Fiz milhares de quadradinhos de datas e joguei tudo para o alto. Hoje não é dia nenhum, é a semana 46, o mês tem centenas de anos, nem idade tenho mais. Achei um calendário na porta da geladeira. Circulei de 1 a 30, dia por dia, era abril. Todos os dias eram especiais, meu aniversário e de meus amigos. Esse ano acabou e é por isso que brinco de mudá-lo sempre que resolvo escrever qualquer coisa.
Adulterei todos os relógios, desperto em horários incertos, faço cara de paisagem. Passagem para outra dimensão, teria eu encontrado a ferramenta que move os ponteiros? No pulso, o objeto só mudava a data ao meio-dia, vivia 12 horas atrasada. Corri tanto, fôlego nenhum.
Meu tempo é outro, não se aplicam a ele cronômetros, é ampulheta invertida. Fina areia que escorre nas vagas das mãos. Tempo que confunde, mente sobre minha existência. Eu o deturpo, finjo que ele não existe. Folhas espalhadas em 30, 31, 28 e 29. Folhas que são doze e mais de trezentas. Folhas múltiplas que eu deixei de contar. Eu, coelho de Alice.