quarta-feira, 30 de março de 2011

O GOSTO DA SAUDADE

Fazia tempo que não sentia a doçura suave da manga madura, todo aquele amarelo se desmanchando na língua. Era manhã ensolarada em sua lembrança, um dia sem tempo de início e com sabor distante e familiar.

Tinha o cheiro do terreno fértil e molhado para fazer brotar a pitangueira, para abrigar as sementes de graviola. Eu consigo ouvir as borboletas pretas com manchas cor de rosa a namorar. Elas estalam como beijos de despedida e estão na manhã imaginária que invento em uma madrugada qualquer.

Deve estar chovendo.

Lembro-me da toalha branca com detalhes em renda e dos apoios de madeira para as fumegantes panelas. Lembrar-se é um tipo de saudade sem dor. É quando o sentimento concretiza o que faz falta com imagens, perfumes, gostos.

Sei que prefiro ver o céu com todas as luzes apagadas. Ainda me recordo de noites salpicadas com estrelas infinitas.

A gente bem que podia dizer boa noite e deixar as janelas abertas só mais um pouco. Sim, os insetos vão entrar em revoada, eles só querem ficar perto do sangue quente que corre dentro das nossas pernas, mas estamos preparados. A nossa casa é de campo.

Gosto de sentir toda esta brisa sem medo dos besouros e esperanças. Fico vendo os desenhos que meus olhos cansados querem criar no mosquiteiro: uma velha, uma flor, um olhar. Não, não é de tristeza. É de dúvida e radiante.

Sou madeira e tijolo aparente, sou árvore e terra macia.

A minha saudade não me deixa esquecer que abraço é preciso e também falar com carinho. Ela canta minhas músicas favoritas no meu ouvido e me beija o rosto inteiro com amor. Saudade tem cheiro que me confunde, continuo com o perfume de todos que me abraçavam todos os dias.

Essa saudade tem alma boa. Tem o baque e o gosto da manga que acabou de cair no meu quintal.

Um comentário:

Humberto Fonseca disse...

deu até gosto.
só faltou o azedinho delicioso da graviola.

lindio!