quinta-feira, 21 de maio de 2009

HOSPITAL DE CAMPANHA

O barulho das tropas passando não deixava ninguém dormir. A batalha lá fora não teria vencedores, como todas as guerras. Restos de gente com todo tipo de mazela chegavam aos leitos alvos daquele lugar silencioso. O hospital de campanha estava lotado, camas separadas por cortinas, diálogos cruciais, explícitos e sem pudor.

- Como você está?

- Quero não falar sobre isso. Aliás, não quero que você saiba de nada. Não quero saber de nada.

A voz firme ecoou com a resposta áspera. Aparentava ser de um homem com seus 60 anos, forte e com traços cansados. Ele tossia seco e um rapaz jovem tentava ajudar, era filho e nessa condição parecia querer ser protetor, ser ombro, ser saúde. Os cochichos abafados demonstravam que eles não se falavam há anos, pois a conversa era delicada e definitiva. A confissão veio após intermináveis: "Pai, você está se sentindo melhor?".

- Esses médicos... Os médicos deveriam ter avisado antes (tosse), imagine se eles tivessem falado antes. Imagine se, há 15 anos, eles falassem de alcoolismo como falam hoje...

Meu ferimento era interno, desconhecido, mas de sintomas agudos. Ali, todo mundo estava ferido internamente, era um hospital de doenças recentes, urbanas, humanas ao extremo. A gente padecia de pressa e agonia sem medidas, a gente não tinha medo de morrer, mas parecia que tudo estava prestes a acabar. As enfermeiras apagaram as luzes, pouco mais de 2h da madrugada, após verificar a pressão de um, as cobertas de outro, o meu soro que acabava.

Eu dormia, dormia quase sem sentir o braço dormente e a boca ressecada. Dormia em paz interrompida pelo frio, pelo desconforto físico, pelas alterações nos leitos ao redor. Bem longe, o monitor cardíaco de um senhor apitava. Podia ouvir sua respiração abafada na máscara cheia de fumaça, ar artificial que reanimava os pulmões.

- Ai, graças a Deus! A dor passou..., suspirou aliviado o homem que estava ao meu lado. Não podia vê-lo, mas sabia que ele estava bem.

Já não sentia minhas pernas, ouvia os carros buzinarem lá fora, chegavam novos pacientes no hospital: tempo desconexo, o coração já bate vazio, estava com vontade de sair, sair logo. Eu já posso...

As luzes permaneciam acesas e tudo estava mais claro, tão claro que ofuscava. Sol, sol encoberto por nuvens, uma dor bem fina.

- Desculpa, estou tirando seu soro, você já pode ir.

Não reconheci a enfermeira. Caminhei sem pensar pelos imensos corredores brancos, só portas fechadas. Fiquei aliviada quando cheguei na rua, neblina se dissipando e pessoas fazendo exercícios. Estava curada. Saudável coração batendo descompassado.

2 comentários:

João Paulo da Silva disse...

paulinha, concisa e sagaz. fico emocionado com tua escrita e sensibilidade. cabecinha de ouro.bj

joaquim disse...

oi Paula! Que engraço que você achou meu blog, hahahahaha... É uma matéria da faculdade que estou terminando este semestre, é bem legal!
vou visitar sempre por aqui!

abraços,
joaquim.